Pinacoteca Reúne 230 Obras de Ismael Nery na Mostra Armadilha Moderna
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Pinacoteca Reúne 230 Obras de Ismael Nery na Mostra Armadilha Moderna

Com curadoria de Yuri Quevedo, a retrospectiva do modernista paraense ocupa sete salas do edifício Pina Luz desde 5 de setembro e fica em cartaz até 31 de janeiro de 2027.

Rafael Nogueira

Um Modernista Difícil de Encaixotar Ganha Retrospectiva

A Pinacoteca de São Paulo inaugurou no sábado, 5 de setembro, a exposição “Ismael Nery: Armadilha Moderna”, maior mostra dedicada em anos ao pintor, desenhista e pensador paraense. A retrospectiva ocupa sete salas do primeiro andar do edifício Pina Luz, na Praça da Luz, e fica em cartaz até 31 de janeiro de 2027. A curadoria é assinada por Yuri Quevedo.

Ao todo, são reunidas cerca de 230 obras entre desenhos, pinturas, retratos e autorretratos — um recorte amplo o suficiente para acompanhar a trajetória de um artista que, apesar de ter morrido aos 33 anos, deixou uma produção difícil de resumir a um único rótulo estético.

Quem Foi Ismael Nery

Nascido em Belém do Pará em 9 de outubro de 1900 e falecido no Rio de Janeiro em 6 de abril de 1934, aos 33 anos, vítima de tuberculose, Ismael Nery é considerado uma das vozes mais singulares do modernismo brasileiro. Formado pela Escola Nacional de Belas Artes em 1915 e depois pela Académie Julian, em Paris, em 1920, sua obra dialoga com o surrealismo e o expressionismo europeus, mas nunca se filiou de forma definitiva a nenhum dos dois movimentos.

Nery se aproximou de outros nomes centrais do modernismo — entre eles o poeta Murilo Mendes, com quem trabalhou no serviço de patrimônio histórico — e casou-se em 1922 com a também poeta Adalgisa Nery, que décadas depois registraria a relação dos dois no romance autobiográfico A Imaginária (1959). Sua obra mais conhecida, o Autorretrato de 1927, hoje no acervo do Masp, é frequentemente comparada ao Violinista Verde, de Marc Chagall. Relativamente esquecido após sua morte precoce, o artista só voltou a ganhar visibilidade institucional na década de 1960, quando peças suas foram exibidas na seção de surrealismo da Bienal de Arte de São Paulo.

”É Tudo Uma Armadilha”

O título da mostra vem de uma frase do próprio curador: “É tudo uma armadilha. Nery é uma armadilha” — referência à dificuldade de classificar a obra do artista sob rótulos convencionais como cubismo ou surrealismo. Segundo a proposta curatorial, os trabalhos expostos investigam a instabilidade da identidade, a fusão entre gêneros, a corrupção da matéria e o desejo religioso, por meio de figuras humanas sensuais e muitas vezes andróginas que transitam “entre o afeto e a violência, o desejo carnal e o trauma da finitude”.

Informações Para Visitar

  • Local: Pinacoteca de São Paulo, edifício Pina Luz (1º andar, sete salas de exposição) — Praça da Luz, 2, Bom Retiro, São Paulo
  • Período: 5 de setembro de 2026 a 31 de janeiro de 2027
  • Horário: quarta a segunda-feira, das 10h às 18h (última entrada às 17h); fechado às terças
  • Ingresso inteira: R$ 40
  • Ingresso meia-entrada (estudantes e idosos): R$ 20
  • Entrada gratuita: aos sábados e no segundo domingo de cada mês

Por Que Vale Acompanhar

Ismael Nery ocupa um lugar curioso na história do modernismo brasileiro: influente entre seus contemporâneos, citado como referência por nomes que se tornaram muito mais conhecidos do que ele, mas raramente contemplado com mostras de grande porte fora do circuito especializado. Ao reunir 230 obras em sete salas — um volume expressivo mesmo para uma retrospectiva —, a Pinacoteca oferece a chance de ver de perto o que torna Nery tão difícil de enquadrar: uma obra que antecipa décadas de discussões sobre identidade e gênero, construída por um artista que não viveu para ver o próprio nome ganhar o reconhecimento tardio que passou a receber a partir dos anos 1960. Com entrada gratuita em datas específicas e quase cinco meses de duração, “Armadilha Moderna” chega como uma oportunidade rara de mergulhar na obra de um dos nomes mais singulares — e menos óbvios — do modernismo brasileiro.