Um Drama Brasileiro Entre os Vencedores de Veneza
A 83ª edição do Festival de Veneza, realizada entre 2 e 12 de setembro, anunciou no dia 11 de setembro os vencedores de suas premiações paralelas — e o Brasil esteve entre os destaques. O longa gaúcho London, dirigido pelos estreantes Victor Di Marco e Márcio Picoli, venceu o Leão Queer (Queer Lion), prêmio dedicado a obras com temática LGBTQIA+ exibidas no festival. A honraria foi dividida com o documentário britânico Queer Edward II, de Theo Rollason.
Com 90 minutos de duração, o filme foi exibido dentro da Semana Internacional da Crítica, mostra paralela do festival dedicada a óperas-primas e obras de diretores em início de carreira — o que reforça o caráter de estreia da dupla de diretores por trás do projeto.
Do Que Trata “London”
O filme acompanha London, um jovem com deficiência que sustenta a própria vida por meio de performances eróticas em um estabelecimento fetichista. Segundo o júri do prêmio, a obra “explora aspectos da vida queer raramente vistos no cinema contemporâneo”, construindo personagens jovens que vivem a própria sexualidade de forma explícita e sem pudor, em meio a temas como fetiche, prazer, amizade e resistência.
Victor Di Marco, um dos dois diretores, também assume o papel-título no elenco. Completam o time de atores Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. A produção é assinada pela Proa & Popa, produtora gaúcha que já havia levado outros projetos a festivais internacionais.
Uma Dupla Com Trajetória em Curtas
Márcio Picoli e Victor Di Marco não chegam a Veneza como estreantes desconhecidos: desde o início de carreira, a dupla se dedica a curtas-metragens que discutem deficiência, gênero, sexualidade e a percepção da diferença, reunindo prêmios em festivais brasileiros com títulos como “O Que Pode um Corpo?” (2020), “Possa Poder” (2022), “Rasgão” (2023) e “Zagêro” (2024) — este último vencedor de Melhor Filme pelo júri popular e Melhor Ator (para Di Marco) no 31º Festival de Cinema de Vitória. London é o primeiro longa-metragem dos dois diretores.
O Prêmio Que Segue os Passos do Teddy Award
Criado em 2007 pelo produtor Daniel N. Casagrande em parceria com o então diretor artístico do festival, Marco Müller, o Leão Queer foi inspirado no Teddy Award, premiação de temática LGBTQIA+ concedida no Festival de Berlim desde os anos 1980. Ao longo das edições, a honraria já reconheceu títulos como “L’Animale” (2018) e “The World to Come” (2020), consolidando-se como um dos prêmios paralelos mais respeitados do circuito de Veneza.
Estreia Confirmada no Festival do Rio
Após a première mundial na Semana Internacional da Crítica, London já tem data de chegada ao público brasileiro: o filme estreia em outubro, no Festival do Rio, onde disputa a competição oficial de longas de ficção do evento — um indício de que a passagem por Veneza deve se traduzir rapidamente em visibilidade dentro do circuito nacional de festivais.
Ficha Técnica
- Título: London
- Direção: Victor Di Marco e Márcio Picoli
- Elenco: Victor Di Marco, Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias, Manu Thedy
- Duração: 90 minutos
- Produção: Proa & Popa
- Mostra: Semana Internacional da Crítica (Settimana Internazionale della Critica)
- Prêmio: Leão Queer 2026 (dividido com Queer Edward II)
Um Ano Forte Para Coproduções Brasileiras em Veneza
London não foi a única presença brasileira relevante na edição deste ano. Retorno a Buenos Aires, coprodução entre Brasil e Itália dirigida por Marco Bechis, disputou a competição oficial pelo Leão de Ouro e terminou o festival reconhecida com o Prêmio Francesco Pasinetti, concedido pelos jornalistas de cinema italianos. O elenco reúne o ator italiano Adriano Giannini e os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy.
Já o Leão de Ouro, principal prêmio do festival, foi para Woman Unknown (no original dinamarquês, Kvinde Ukendt), dirigido pela dinamarquesa May el-Toukhy, que se tornou a oitava cineasta mulher a levar a honraria máxima de Veneza. A atriz Mathilde Arcel venceu a Copa Volpi de Melhor Atriz pela atuação no mesmo filme.
Por Que Vale Acompanhar
Prêmios paralelos como o Leão Queer raramente chegam ao grande público com a mesma força de uma disputa pelo Leão de Ouro, mas costumam funcionar como termômetro do que há de mais ousado e autoral no circuito internacional de festivais — e servem de vitrine importante para cineastas em início de carreira. Para o cinema brasileiro, ver uma dupla de diretores gaúchos com anos de trajetória em curtas conquistar reconhecimento em uma mostra do calibre da Semana Internacional da Crítica, logo em seu primeiro longa, é um sinal de que a produção independente do país segue encontrando espaço fora das fronteiras nacionais. Com estreia já garantida na competição oficial do Festival do Rio em outubro, London chega ao público brasileiro embalado pelo reconhecimento internacional — e deve ser um dos títulos mais comentados da temporada de festivais no país.